A prática pictórica de Michel Scherer se constrói no encontro entre tradição e experiência vivida. Suas pinturas atravessam referências que vão do barroco aos desdobramentos modernos, sem se fixarem nelas, incorporando materiais, gestos e memórias do cotidiano onde muitas vezes marcadas por sua relação com o trabalho manual, a cozinha e a cidade.
Variando entre grandes formatos e outros mais íntimos, a produção de Michel nasce do confronto direto com a matéria. Pigmentos industrializados, superfícies diversas e o próprio comportamento da tinta são tratados como agentes ativos capazes de conduzir a pintura a estados imprevistos. Nesse processo, para Scherer, pintar torna-se uma forma de escuta naquilo que se forma enquanto ainda não tem nome.
Os trabalhos de Michel frequentemente orbitam em torno de motivos clássicos da arte, como flores, naturezas-mortas e estruturas de interioridade, deslocados para um campo instável onde já não se sabe ao certo se são objetos, estados ou aparições. Em sua série flores para casas em chamas, Scherer apresenta a pintura como um campo de tensão entre permanência, dissolução, memória e transformação.
Mais do que representar, a pintura de Michel busca sustentar estados e variações de presença, onde o íntimo e o mundo se atravessam e se confundem. Nesse sentido, sua prática pode ser entendida como um exercício contínuo de atenção — uma forma de permanecer no mundo através do fazer.
foto por Benedikt Ahmed
São Paulo Setembro 2024